Um eu consciente diz para não me preocupar. Ainda assim, quinze dias virão de muita agonia e incerteza. É o tipo de coisa que no fundo você sabe que pode mudar sua vida pra sempre. Mas, sabe, acho que todos deveriam passar por esse tormento psicológico ao menos uma vez na vida -- há pessoas que precisariam todo mês. Porque é só nessa hora que você pára pra se dar conta de que não é diferente de ninguém, de que está exposto aos riscos tanto quanto os outros. Que um descuido apenas pode transformar a sua vida. Pra sempre. E é quase impossível não se ver em choro pelo menos um minuto até o momento decisivo.
Com a saúde frágil e misteriosa que sempre tive, já enfrentei diversos tipos de agonia do gênero, inclusive a mesma do agora, mas eram outros tempos. Já vi a morte de perto diversas vezes, não necessariamente chegando a "enxergar a luz", mas já me declarei contada em vários momentos.
Uma dessas "mortes", uma das que menos duraram um tempo cronológico, porém uma eternidade no psicológico, foi o dia em que acordei paralítica. O despertador ao longe tocando, e as pernas inúteis que me levaram ao chão. Um baque enorme, quase um búfalo sendo amordaçado. Demora um pouco para cair a ficha quando tudo o que você mais quer é desligar um maldito despertador barulhento e luminoso, mas no primeiro segundo de silêncio, se dá conta de que foi rastejando com os braços até a escrivaninha. Tenta se pôr de pé e deseja pelo amor de Deus ainda estar sonhando, pois suas pernas pesam chumbo e não lhe reconhecem. Não há tempo de gritar. Apenas de começar lentamente a se conformar... Não há dor, formigamento, nada. Apenas o peso. Lembro-me de ter deitado a cabeça no chão frio, enquanto via toda a minha vida passar diante dos meus olhos. Como eu iria dizer para a minha mãe que precisávamos não mais ir à escola, mas sair para comprar uma cadeira de rodas. Era apenas esperar que ela abrisse a porta e me visse caída em posição disforme e desengonçada no chão. Foram tantos pensamentos que, em meio a eles me distraí puxando levemente a perna em espasmo. E como se o fizesse pela primeira vez, fui buscando o equilíbrio do corpo, puxando as pernas com as mãos, me colocando em posição Homo sapiens. Quando me vi de pé, já era uma tarefa tão inacreditável que temi dar o primeiro passo e novamente ver a decepção. Voltei-me para a cama e me permiti sentar. Respirei fundo e me atrevi novamente ao primeiro passo. E fui desconfiada, pé ante pé, mãos estendidas, prontas para uma possível proteção, e aqueles dez passos até o banheiro foram o trajeto mais longo que me lembro de já ter percorrido um dia.
Porém a Morte, verdadeiramente, já é algo bem intríseco a mim. Afinal, nasci morta. Mais breve que esses cinco minutos eternos de paraplegia, foram os eternos quase dois minutos em que me mantive sem ar, sem coração, ao primeiro toque com a atmosfera terrestre. Um bebê já bem declarado morto. Mas vá dizer isso a uma mãe cheia de fé e desespero por esperança, que via ali, sua terceira tentativa de mãe brincar com sua quase alegria e começar a dar adeus. Surda, doente mental, tetraplégica. Nada. Nenhuma seqüela. Um milagre.
Suicídios, afogamentos, cegueira absoluta, nódulos bizarros, urina sangrenta, paradas respiratórias, quase inanição por inflamações múltiplas gastro-intestinais, cercada por carros em mão dupla no horário de pico em cima da faixa divisória de mão e contra-mão em avenida movimentada... É quase uma piada. Sem contar as doenças misteriosas, que levam a esses exames atormentadores...
Netuno, Quíron, Marte, Mercúrio e Sol. Todos resolveram agora brincar um pouquinho e se esquecer do tempo na Casa Oito, a Casa da Morte, já tão suficientemente morada por Júpiter, deus supremo e majestoso do Olimpo, que roubou, no meu mapa, o reino de seu irmão inimigo Plutão. Aqui, o deus do Olimpo desceu até o Reino dos Mortos e lá escolheu para viver. Mistério. Ironia.
Então vamos tentar fingir que é apenas mais uma piada da vida e pensar que é apenas uma prova de matemática, em que, se eu tirar nota baixa, posso refazer na recuperação. Porque se eu pensar nas conseqüências verdadeiras dessa nota baixa, é melhor nem querer repetir de ano.
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