E conseguiu.
Um lugar simples, uma cantina da própria faculdade, mas que eu não conhecia. Comida vegetariana -- não come carne há sete anos --, conversa agradável. Já tinha nele confiança o bastante para conhecer seu escritório. Um lugar incrível, maravilhosamente arquitetado, piso de aquário, teto de vidro, bambus. E lá mesmo ficava seu aconchego pessoal, ainda que improvisado.
Depois de me passar algumas músicas xamânicas, ele se deitou no enorme colchão que ficava no chão mesmo e relatou várias de suas viagens espirituais. Contava de uma forma tão empolgante que até se o assunto não me interessasse passaria a me interessar. Ao fundo tambores e animais.
Alugamos um filme que de tanto me falar, tivemos que assistir naquele dia. Os músculos das minhas costas doíam imensamente, resultado das tantas atividades físicas que realizo durante a semana. Ele se ofereceu para uma massagem e eu permiti, realmente doía muito. Difícil não imaginar que dali não surgiriam carinhos que aos poucos seriam correspondidos. Ao terminar o filme, carinhos mais íntimos.
Não fomos até o fim porque não estava me sentindo fisicamente preparada para aquilo, não ficaria totalmente à vontade.
De qualquer forma, posso dizer que conseguiu o que nenhum estranho jamais conseguira: a chance de tentar.
domingo, 26 de setembro de 2010
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Um maluco. Era sutilmente cortejada pela menina com quem outrora havia ficado, a mesma daquela festa anterior. Eis que me surge, já com ar de conhecido, dizendo-me que me via por um famigerado bar, o mesmo que outrora freqüentava para ir de encontro àquele que já passou. Porém não trouxe perguntas prontas, não me fez entrevistada. E assim, prendeu-me a atenção.
"Eu adoro você". No presente do indicativo, embora fosse a primeira vez que me falasse. Caralho, mas tinha um sorriso! E não fingia modéstia, assim como sabia que no fundo eu também sei o cabelo deslumbrante que possuo. Uma franqueza e percepção tamanhas que não me atrevia a dar-lhe sua sentença final de morte antes de mais uma pequena mostra de que poderia ser mesmo intrigantemente interessante, não antes que se completassem mil e uma noites.
A menina? Que menina? Já beijava outra. Ele, por sua vez, afirmou que não me tentaria beijar. Faria-me confiar nele, pois o que queria era me conhecer. E me adorava. Temas realmente interessantes a mim e, acima de tudo, abria sua vida de forma bem natural, dando-me confiança a ponto de eu mesma passar a lhe contar fatos próprios.
Do primeiro minuto ao último, repetiu algo como uma dezena de vezes seu e-mail, o qual manteria arquivado numa gavetinha mental que abriria eu de vez em quando apenas para cogitar a contrariedade de uma decisão já por mim estabelecida naquele adeus seguido de "a gente se encontra por aí". Nada apreciado por quem ouviu.
Dados em mente, mapa astral. Ascendente, quadratura. Não. Meu carimbo e assinatura abaixo.
Pouco mais de dois meses. Uma das mais agradáveis festas até o presente. Em meio à multidão, ele. Perdi. Dancei, bebi, fumei, ri. Viro-me, sorrio. "Eu falei que nos veríamos por aí.", "Hoje você me dará seu contato!", "Eu ainda sei seu e-mail.", "E por que não me escreveu?", "Rsrs..." Da noite, bastou.
Orkut. Passou-me mais informações pessoais. Insistência, e-mail. Convite para jantar. Jantar, o quê?? Quem, aqui em meu mundinho, já me chamou pra jantar?? Dias desesperada entre "que roupa?", "salto?", "mostrarei minha lingerie?", "divide-se a conta?", "vergonha", "afinal, aceito ou não?". Paranóias levadas pelo já telefonema a combinar já não mais um jantar, almoço.
Amanhã. Um desconhecido que foi capaz de me dobrar. Ganhou minha atenção, minha verdade, meu Orkut, meu e-mail, meu telefone, minha companhia para almoçar. Seis de Copas. E amanhã veremos o que mais será capaz de ganhar de mim.
"Eu adoro você". No presente do indicativo, embora fosse a primeira vez que me falasse. Caralho, mas tinha um sorriso! E não fingia modéstia, assim como sabia que no fundo eu também sei o cabelo deslumbrante que possuo. Uma franqueza e percepção tamanhas que não me atrevia a dar-lhe sua sentença final de morte antes de mais uma pequena mostra de que poderia ser mesmo intrigantemente interessante, não antes que se completassem mil e uma noites.
A menina? Que menina? Já beijava outra. Ele, por sua vez, afirmou que não me tentaria beijar. Faria-me confiar nele, pois o que queria era me conhecer. E me adorava. Temas realmente interessantes a mim e, acima de tudo, abria sua vida de forma bem natural, dando-me confiança a ponto de eu mesma passar a lhe contar fatos próprios.
Do primeiro minuto ao último, repetiu algo como uma dezena de vezes seu e-mail, o qual manteria arquivado numa gavetinha mental que abriria eu de vez em quando apenas para cogitar a contrariedade de uma decisão já por mim estabelecida naquele adeus seguido de "a gente se encontra por aí". Nada apreciado por quem ouviu.
Dados em mente, mapa astral. Ascendente, quadratura. Não. Meu carimbo e assinatura abaixo.
Pouco mais de dois meses. Uma das mais agradáveis festas até o presente. Em meio à multidão, ele. Perdi. Dancei, bebi, fumei, ri. Viro-me, sorrio. "Eu falei que nos veríamos por aí.", "Hoje você me dará seu contato!", "Eu ainda sei seu e-mail.", "E por que não me escreveu?", "Rsrs..." Da noite, bastou.
Orkut. Passou-me mais informações pessoais. Insistência, e-mail. Convite para jantar. Jantar, o quê?? Quem, aqui em meu mundinho, já me chamou pra jantar?? Dias desesperada entre "que roupa?", "salto?", "mostrarei minha lingerie?", "divide-se a conta?", "vergonha", "afinal, aceito ou não?". Paranóias levadas pelo já telefonema a combinar já não mais um jantar, almoço.
Amanhã. Um desconhecido que foi capaz de me dobrar. Ganhou minha atenção, minha verdade, meu Orkut, meu e-mail, meu telefone, minha companhia para almoçar. Seis de Copas. E amanhã veremos o que mais será capaz de ganhar de mim.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Plutão na Casa Oito e a última prestação do colchão.
É possível se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa? E pelo ex-namorado? Eu, pelo menos, não imaginava que seria.
Acordei radiante, pois não apenas dançaria tango ao final do dia, mas dançaria com ele. E tango. Tapeei Chronos, tomei aquele banho e escolhi a melhor lingerie.
A aula foi perfeita, a melhor até então. Conseguimos ensaiar os passos como que ensaiássemos uma noite de amor. E ensaiávamos mesmo. A apresentação veio depois, quando éramos artistas e platéia de um mesmo espetáculo.
Certo ou errado, nossos corpos foram movidos pela paixão que reacendia de uma brasa nunca verdadeiramente apagada. Eram dois bichos. Rosnando, se cheirando, medindo forças. Amando-se inocentemente.
De todos os tangos, infinitamente o melhor.
Eu o quero de volta, estou decidida. Não seria possível haver no mundo alguém com quem eu mais queira uma casinha colorida com cerquinha branca e jardim, um cachorro saltitante, criançada descalça pelos corredores e café com livro numa manhã chuvosa. Sim, eu o deixei, talvez um dos maiores erros que já cometi, mas dei minha cara a tapa por um futuro de conto de fadas.
Plutão. A morte lhe reina o estado de espírito até os capilares mais finos dos dedos dos pés. E não há vida pós Reino dos Mortos.
Abraçou-me em profundo desespero de não saber conter o pranto doído que me matava por dentro.
Nada mais poderia ser feito. Somente abrir o portão e dizer adeus.
Aos soluços ecoantes, apenas uma confirmação antes das minhas últimas forças desse dia. O mesmo Plutão vinte e três anos antes imperando naquela manhã, transitava nessa noite pelos domínios da Casa Oito.
O último átimo de lucidez antes de me entregar à completa exaustão, à já completa impossibilidade de abrir os olhos inchados: pagaria neste exato mês a última prestação do colchão.
Acordei radiante, pois não apenas dançaria tango ao final do dia, mas dançaria com ele. E tango. Tapeei Chronos, tomei aquele banho e escolhi a melhor lingerie.
A aula foi perfeita, a melhor até então. Conseguimos ensaiar os passos como que ensaiássemos uma noite de amor. E ensaiávamos mesmo. A apresentação veio depois, quando éramos artistas e platéia de um mesmo espetáculo.
Certo ou errado, nossos corpos foram movidos pela paixão que reacendia de uma brasa nunca verdadeiramente apagada. Eram dois bichos. Rosnando, se cheirando, medindo forças. Amando-se inocentemente.
De todos os tangos, infinitamente o melhor.
Eu o quero de volta, estou decidida. Não seria possível haver no mundo alguém com quem eu mais queira uma casinha colorida com cerquinha branca e jardim, um cachorro saltitante, criançada descalça pelos corredores e café com livro numa manhã chuvosa. Sim, eu o deixei, talvez um dos maiores erros que já cometi, mas dei minha cara a tapa por um futuro de conto de fadas.
Plutão. A morte lhe reina o estado de espírito até os capilares mais finos dos dedos dos pés. E não há vida pós Reino dos Mortos.
Abraçou-me em profundo desespero de não saber conter o pranto doído que me matava por dentro.
Nada mais poderia ser feito. Somente abrir o portão e dizer adeus.
Aos soluços ecoantes, apenas uma confirmação antes das minhas últimas forças desse dia. O mesmo Plutão vinte e três anos antes imperando naquela manhã, transitava nessa noite pelos domínios da Casa Oito.
O último átimo de lucidez antes de me entregar à completa exaustão, à já completa impossibilidade de abrir os olhos inchados: pagaria neste exato mês a última prestação do colchão.
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