Finalmente um pouco de veneno para adoçar minha vida. Meu namorado reapareceu alguns dias depois. Logo na segunda-feira seguinte, fez-me uma visita saudosa em meu quarto, onde eu ansiava por muito dormir, já que passara a noite inteira analisando meus mapas astrológicos relacionados com meu mais recente afeto. Ele estava sim com muita saudade e satisfeitíssimo por me ver. Mas queria contar logo, Marte e Mercúrio não me dão sossego. Queria já saber sua reação e resolver o que tivesse a ser resolvido sem demora.
Contei. Falei dos muitos beijos. Ele dissolveu seu sorriso. Falei da transa. Fechou os olhos por alguns segundos, como que desejando fechar os ouvidos no lugar. Como se fechando os olhos, aquela realidade deixasse de existir. Não conseguia dizer nada a respeito, apenas quis ir embora depressa. Precisava pensar. Não tive escolha a não ser voltar a dormir.
À noite passou em casa para conversarmos. Parecia já bem melhor, de certa forma conformado pelo já muito antes esperado. Mas enquanto conversávamos, mudava de idéia constantemente, ora queria terminar tudo, ora dizia que me amava demais. No dia seguinte a mesma coisa, mas regado a muitas lágrimas de ambos. Nada resolvido ao final do dia. A decisão ficara em minhas mãos, mas até agora nada.
Tenho pensado e afirmado todos os dias, inclusive para minhas colegas de república, que vou terminar com ele. E todos os dias elas me vêem aos beijos e carinhos com ele. Já estou ficando sem palavra. Hoje mesmo, Mercúrio e Marte impulsionaram-me a terminar logo com tudo isso. Mas era tão grande o sono, que não conseguia nem abrir os olhos pra terminar com ele. Preferi entregar-me aos abraços deitada no sofá e deixar esse término para amanhã, quando eu supostamente estiver mais preparada fisicamente pra isso.
Agora, por que tanto sono? Ora, mais um noite memorável! Era só pular o muro e voilá!, bem-vinda ao inferno de Dante! Claro que tinha más intenções, claro que não chamei meu namorado pra ir à festa. Mas nunca vou com intenções bacantes, elas é que se apossam de mim.
A oportunidade no bar da festa. Os maravilhosos olhos verdes me acompanharam. Pelo amor de Deus, encha de cachaça essa caneca com bebida ridícula! Uma criança de dois anos beberia isso aqui! Agora sim, digno de Hiha! Mas a paciência de esperar uma iniciativa me matava. Não podia perder a chance. E finalmente, sendo fiel ao que verdadeiramente sou, arranquei-lhe um delicioso beijo.
E não demorou a Baco agir sobre mim. Ainda que provavelmente indignado pela minha traição com a cachaça. Mesmo assim, faço jus a seus desígnios. Incapaz de contar quantas bocas passaram por mim. E a proporção homens e mulheres deve ter chegado à metade.
Ainda tentei um repeat completo com quem mais me interessava, mas não tive sucesso. Seja pela consideração à sua namorada, seja por um detalhe ariano à nossa relação, seja pelo simples fato de que teria que acordar cedo no dia seguinte. A mensagem está dada.
Mas acredite, de tantas qualidades que encontro nesse rapazote, o que mais me surpreende é o espetacular fetiche que me realiza. Imagine que ele e seus companheiros de república, e ademais também os amigos da faculdade, entregam-se aos maiores dos inusitados beijos. E digo Beijos, com B maiúsculo.
Dessa vez, pelo simples fato de não ter havido sexo, houve menos tensão. De qualquer maneira, novamente cogitou o término, que, como eu disse, era atividade discursiva demais para uma pessoa recém embriagada.
Diferente de mim, alguém passou uma noite em meio a novos lençóis. O quarto estava vazio quando cheguei.
Enquanto isso, Hiha toca sua vida insana.
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