O simples ato um pouco fora da minha rotina mais diária -- ir ao dentista -- me proporciona novos tópicos de reflexão a respeito da vida e de mim mesma. O que já é o bastante pra me manter entretida com meus monodiálogos interiores por bem uns pares de dias.
Nunca me dispus a documentar nenhum nome neste blog, seja pessoal ou de instituição. Nem ao menos o meu próprio nome deixo à disposição para ser lido em vão. Propositalmente. Os motivos são meus. Entretanto, tenho um nome que gostaria de deixar guardado aqui, até porque há motivos para que a minha memória não me permita acessar essa informação com facilidade no futuro.
Saindo do consultório do dentista, ainda um tanto incerta do rumo a se tomar para voltar pra casa, abro a porta de vidro ao mesmo tempo em que sai imediatamente atrás de mim essa senhorinha. Toda sorridentinha, assim, como se já me conhecesse, desabafou "É tão bom quando a gente se livra de uma dor, não?". Eu, tímida que sou com desconhecidos imediatos, mas simpática que sou com desconhecidos imediatos, sorri em concordância. Mantive-me na retaguarda de continuar o assunto ou tomar meu caminho, ao que, na dúvida, passei à frente mas mantendo os passos lentos, em abertura a uma continuação da "conversa". "Você está indo pra onde?", me perguntou, "Para o ponto de ônibus, em frente ao supermercado", "Ah! Eu te levo lá! É meu caminho! E você ainda me faz compainha!..." Meu coraçãozinho canceriano derrubou uma lágrima de sorriso.
"A senhora estava contando que estava sentindo uma dor?", "Ah, minha filha... É uma longa história...", e começou a relatar, mais sucintamente do que havia me preparado para esperar, menos objetivamente do que se contaria a um desconhecido sobre um episódio ocorrido com sua prótese dentária.
Conforme ela contava o ocorrido, observava reflexivamente cada movimento daquela senhorinha muito bem maquiada e de unhas pintadas de um rosa forte bem alegre. Em seus movimentos vagarosos, abria uma espécie de trava para defender seu carro d'o ladrão', uma pausa na história para se lamentar da sujeira -- imperceptível -- no carro, encontrar a chave e dar partida.
O ocorrido em si não importa, mas enquanto ela contava sua história, observava a confiança que aquela senhorinha tão simpática e [lamentavelmente] indefesa para os tempos pré-apocalípiticos depositava em mim.
"... O meu marido estava com pressa pra dormir e ficava me chamando 'cadê você que não vem deitar logo? Tô com sono!', e eu, comecei a me apressar também, né?..."
Observava sua pele bastante conservada para a idade que devia ter, chuto uns setenta e tantos, e imaginava aquela mesma pele sendo vagarosamente pintada, com a pressa daqueles que já aprenderam que não adianta correr, usando cada produto meticulosamente escolhido, com suas combinações de cores de sombra, blush tom de pêssego e até, por que não?, um lápis de sobrancelha tão bem aplicado, tanto em tonalidade quanto na perfeição do traço, que cheguei a me envergonhar por um instante das minhas sobrancelhas muito pretas à la protagonista do Psicose.
"... Aí eu percebi que quebrou um pedacinho, e eu até ouvi quando caiu lá no fundo do enxagüatório. E como meu marido estava com pressa, peguei o pedaço que ficou e embrulhei num pedacinho de papel higiênico... [deu uma risadinha] Eu já falo assim a verdade que é pra pessoa achar graça mesmo...! [Ri mais do comentário dela que do próprio ocorrido]"
Observava como, mesmo tão internalizada em seu próprio ritmo, mantinha-se sempre atenta ao trânsito frenético do centro da cidade, abusando de todas as devidas sinalizações corretas.
"... Eu nem falei nada pro meu marido. Ele também, já tava com sono, não ia conversar mais aquela hora, aí achei melhor eu dormir também..."
O ponto de ônibus que me indicaram na clínica era longe o bastante pra percorrer a pé, mas muito perto para interromper uma compainha tão agradável. Encostou o carro e, como era uma avenida muito movimentada e ela parara justamente em frente ao ponto de ônibus, procurei não me demorar a sair. Tive tempo apenas de agradecer muito, desejar melhoras e perguntar o nome daquela senhorinha tão simpática: "É Conceição! E o seu?", repetiu meu nome em voz alta, "muito prazer!", e antes que eu saísse do carro, teve tempo ainda de acrescentar "Conceição Figueira. Se um dia nos encontrarmos novamente, termino de lhe contar a história!", "Claro! Será um prazer!" Fechei a porta e acenei sorridente.
Depois de me informar de que naquele ponto não passaria nenhum ônibus que me servisse, percorri um trecho a pé enquanto refletia a respeito de mais um desses episódios banais tão marcantes da minha vida, e que me emocionam tanto. Tentei me imaginar velhinha, no comando de um carro, muito maquiada e dando carona para jovens que, como eu, teriam potencialmente muita disposição para percorrer grandes trechos a pé, mas que, hora ou outra, assim, sem que se planejasse, fossem conduzidos por uma senhorinha ao pé de um volante.
2 comentários:
Esse foi o texto mais lindo e bem contado e bem escrito que eu já li no seu blog. ;)
adorei! simples e reflexivo =)
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