O simples ato um pouco fora da minha rotina mais diária -- ir ao dentista -- me proporciona novos tópicos de reflexão a respeito da vida e de mim mesma. O que já é o bastante pra me manter entretida com meus monodiálogos interiores por bem uns pares de dias.
Nunca me dispus a documentar nenhum nome neste blog, seja pessoal ou de instituição. Nem ao menos o meu próprio nome deixo à disposição para ser lido em vão. Propositalmente. Os motivos são meus. Entretanto, tenho um nome que gostaria de deixar guardado aqui, até porque há motivos para que a minha memória não me permita acessar essa informação com facilidade no futuro.
Saindo do consultório do dentista, ainda um tanto incerta do rumo a se tomar para voltar pra casa, abro a porta de vidro ao mesmo tempo em que sai imediatamente atrás de mim essa senhorinha. Toda sorridentinha, assim, como se já me conhecesse, desabafou "É tão bom quando a gente se livra de uma dor, não?". Eu, tímida que sou com desconhecidos imediatos, mas simpática que sou com desconhecidos imediatos, sorri em concordância. Mantive-me na retaguarda de continuar o assunto ou tomar meu caminho, ao que, na dúvida, passei à frente mas mantendo os passos lentos, em abertura a uma continuação da "conversa". "Você está indo pra onde?", me perguntou, "Para o ponto de ônibus, em frente ao supermercado", "Ah! Eu te levo lá! É meu caminho! E você ainda me faz compainha!..." Meu coraçãozinho canceriano derrubou uma lágrima de sorriso.
"A senhora estava contando que estava sentindo uma dor?", "Ah, minha filha... É uma longa história...", e começou a relatar, mais sucintamente do que havia me preparado para esperar, menos objetivamente do que se contaria a um desconhecido sobre um episódio ocorrido com sua prótese dentária.
Conforme ela contava o ocorrido, observava reflexivamente cada movimento daquela senhorinha muito bem maquiada e de unhas pintadas de um rosa forte bem alegre. Em seus movimentos vagarosos, abria uma espécie de trava para defender seu carro d'o ladrão', uma pausa na história para se lamentar da sujeira -- imperceptível -- no carro, encontrar a chave e dar partida.
O ocorrido em si não importa, mas enquanto ela contava sua história, observava a confiança que aquela senhorinha tão simpática e [lamentavelmente] indefesa para os tempos pré-apocalípiticos depositava em mim.
"... O meu marido estava com pressa pra dormir e ficava me chamando 'cadê você que não vem deitar logo? Tô com sono!', e eu, comecei a me apressar também, né?..."
Observava sua pele bastante conservada para a idade que devia ter, chuto uns setenta e tantos, e imaginava aquela mesma pele sendo vagarosamente pintada, com a pressa daqueles que já aprenderam que não adianta correr, usando cada produto meticulosamente escolhido, com suas combinações de cores de sombra, blush tom de pêssego e até, por que não?, um lápis de sobrancelha tão bem aplicado, tanto em tonalidade quanto na perfeição do traço, que cheguei a me envergonhar por um instante das minhas sobrancelhas muito pretas à la protagonista do Psicose.
"... Aí eu percebi que quebrou um pedacinho, e eu até ouvi quando caiu lá no fundo do enxagüatório. E como meu marido estava com pressa, peguei o pedaço que ficou e embrulhei num pedacinho de papel higiênico... [deu uma risadinha] Eu já falo assim a verdade que é pra pessoa achar graça mesmo...! [Ri mais do comentário dela que do próprio ocorrido]"
Observava como, mesmo tão internalizada em seu próprio ritmo, mantinha-se sempre atenta ao trânsito frenético do centro da cidade, abusando de todas as devidas sinalizações corretas.
"... Eu nem falei nada pro meu marido. Ele também, já tava com sono, não ia conversar mais aquela hora, aí achei melhor eu dormir também..."
O ponto de ônibus que me indicaram na clínica era longe o bastante pra percorrer a pé, mas muito perto para interromper uma compainha tão agradável. Encostou o carro e, como era uma avenida muito movimentada e ela parara justamente em frente ao ponto de ônibus, procurei não me demorar a sair. Tive tempo apenas de agradecer muito, desejar melhoras e perguntar o nome daquela senhorinha tão simpática: "É Conceição! E o seu?", repetiu meu nome em voz alta, "muito prazer!", e antes que eu saísse do carro, teve tempo ainda de acrescentar "Conceição Figueira. Se um dia nos encontrarmos novamente, termino de lhe contar a história!", "Claro! Será um prazer!" Fechei a porta e acenei sorridente.
Depois de me informar de que naquele ponto não passaria nenhum ônibus que me servisse, percorri um trecho a pé enquanto refletia a respeito de mais um desses episódios banais tão marcantes da minha vida, e que me emocionam tanto. Tentei me imaginar velhinha, no comando de um carro, muito maquiada e dando carona para jovens que, como eu, teriam potencialmente muita disposição para percorrer grandes trechos a pé, mas que, hora ou outra, assim, sem que se planejasse, fossem conduzidos por uma senhorinha ao pé de um volante.
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sábado, 5 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Acho que a gente sabe que ama alguém de verdade quando, mesmo tudo dando tão certo, você lembra da pessoa e tem vontade de chorar, apenas pela alegria de saber que a ama e que quer passar ao lado dela o resto de sua vida. Quando você tem a certeza mais absoluta de que sua vida não fará mais sentido se ela não estiver ali ao seu lado, compartilhando de cada momento de alegria ou tristeza, conquistas ou perdas, somente que não seja uma perda essa pessoa, porque ela estará ali, ao seu lado, segurando a sua mão e dizendo que estará ali, não importa o que aconteça. Quando cada xícara de café você gostaria que fosse tomada ao lado dela, que você pudesse acordar de um pesadelo à noite e ter a mão dela pra segurar e depois sentir passando a mão nos seus cabelos. Quando todas os outros habitantes da Terra deixam de ser interessantes, porque, não importa o que elas façam ou digam, ninguém o fará da forma boba ou até mesmo estranha que essa pessoa faz, mas que é apenas ela. Quando você tem vontade de abrir a porta e correr, correr, na chuva, no vento, no Sol, por quilômetros, não importa, mas chegar até a porta dela e dizer "vim te ver". Quando você se dá conta de que conseguiu sobreviver sem ela até então porque era tudo um preparo pra se encontrar com ela, e até mesmo seus erros não são condenados porque foram inclusive eles que lhe trouxeram até a pessoa. Porque ela te aceita. Aceita seus erros, aceita seus defeitos, lhe estende a mão e diz "caminha comigo".
Eu não poderia. Mas aqui é meu e se eu não disser, não transformar em palavras tudo o que sufoca, transforma, colore o meu interior, não serei grata por inteiro ao Universo, que me revelou esse presente tão lindo, mais lindo que um céu de nuvens de algodão.
Não quero errar mais, apenas no cálculo dos tijolos a comprar, para que assim possamos construir ao fundo de nossa casinha colorida, uma pequenininha para os cachorros muitos saltitantes e falantes que teremos. Pequenininha.
[Este é o post mais brega que eu já escrevi e de tão brega mostra o quanto amor há nele.]
Eu não poderia. Mas aqui é meu e se eu não disser, não transformar em palavras tudo o que sufoca, transforma, colore o meu interior, não serei grata por inteiro ao Universo, que me revelou esse presente tão lindo, mais lindo que um céu de nuvens de algodão.
Não quero errar mais, apenas no cálculo dos tijolos a comprar, para que assim possamos construir ao fundo de nossa casinha colorida, uma pequenininha para os cachorros muitos saltitantes e falantes que teremos. Pequenininha.
[Este é o post mais brega que eu já escrevi e de tão brega mostra o quanto amor há nele.]
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
365
Beijos. Sorrisos. Conversas. Decepções. Abraços. Desilusões. Perfumes. Macarrão. Dug. Carícias. Bandejão. Banco. Pisco. Gargalhadas. Barba. Jornadas. Chocolate. Lágrimas. Marcas. Ressaca. Poemas. Biblioteca. Segredos. Fotografias. Orgasmos. Raiva. Fim do mundo. Supermercado. Finais-de-semana. Aceitação. Cabelos. Corujas. Chuveiro. Presentes. Riscos. Sinceridades. Colchão. Batom. Terceiros. Marilyn Mason. Filmes. Mentiras. Sofás. Festas. Filas. Mesas. Sarau. Computadores. Ônibus. Pães de queijo. Calças xadrez. Cuidados. Músicas. Surpresas. Flores. Benjamin Button. Porre. Calor. Danças. Caprichos. Salto alto. Maluquices. Esperas. Primeiro pedaço do bolo. Declarações. Afastamentos. Receitas. Lingeries. Pedidos. Pés. Malzbier. Agenda. Scraps. Discussões. Camisetas. Arranhões. Medos. Confiança. Sobremesas. Pêlos. Sonhos. Olhares. Excessões. Omissões. Cochilos. Carla Bruni. Atrasos. Elefantes. Persistência. Risadas. Psicanálise. Brigas. Plutão. Livros. Frio. Desculpas. Sala de informática. Doce. Páscoa. Los Hermanos. Desencontros. Companheirismo. Perdas. Ovo pipoquinha. Aventuras. Compromissos. Mapa astral. Ciúmes. Encontros. Aprendizado. Paciência. Juras. Aniversários. Teimosias. Massagens. Impedimentos. Amizade. Elogios. Tango. Sucos. Datas. E-mails. Filósofos. Coincidências. Chuva. Descobertas. Bicicleta. Fracassos. Planos. Origami. Mãos. Conforto. Edredom. Arrepios. Inveja. Maçã. Distância. Blogs. Amoras. Promessas. Amadurecimento. Pensamentos. Faculdade. Salgado. Snapshots. Cócegas. Cheiros. Vídeos. Mensagens. Suor. Histórias. Aproximações. Telefone. Silêncio. Cinema. Ciclovia. Desentendimentos. Exposições. Feijão. Sussuros. Trocas. Coelhos. Paixão. Testemunhos. Café-da-manhã. Escondidinho. Conselhos. Corredores. Natal. Força. Vídeos. Saudade. Preocupações. Aluguel. Desenhos. Provocações. Boinas. Vergonha. Mordidas. Suspensório. Dor. Confiança. Promessas. Passeios. Camisas. Lembranças. Madrugadas. Crescimento. Brincadeiras. Amor. Vida. Tudo.
domingo, 17 de outubro de 2010
-- Sabe o que eu mais queria esses dias? Ter um canto só meu.
-- Aieeee...
-- Estou começando a querer morar sozinha. Acho que estou virando adulta.
-- Sabe o que eu queria muito e FAZ TEMPO????!
-- O quê?
-- Ter um canto só nosso. Desculpa, não deveria ter dito isso...
-- Bem... Se as coisas tivessem corrido de outras formas, a essa altura estaríamos procurando um canto só nosso... Mas é melhor não falarmos nisso.
A utopia de sonhos abalados... Felizes, sim, felizes, mas que não podem ser planejados, apenas sentidos, no fundo da alma, como cada grão de areia é apenas ele, nada mais. Apenas amor, amor e amor. Planos não. As estrelas.
Um suspiro. E permaneço vivendo.
-- Aieeee...
-- Estou começando a querer morar sozinha. Acho que estou virando adulta.
-- Sabe o que eu queria muito e FAZ TEMPO????!
-- O quê?
-- Ter um canto só nosso. Desculpa, não deveria ter dito isso...
-- Bem... Se as coisas tivessem corrido de outras formas, a essa altura estaríamos procurando um canto só nosso... Mas é melhor não falarmos nisso.
A utopia de sonhos abalados... Felizes, sim, felizes, mas que não podem ser planejados, apenas sentidos, no fundo da alma, como cada grão de areia é apenas ele, nada mais. Apenas amor, amor e amor. Planos não. As estrelas.
Um suspiro. E permaneço vivendo.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Mas quanto açúcar no final daquele mesmo dia! Mensagens de celular não bem entregues, tempestade ameaçando, muitas supostas festas, crédito findando, corre para o computador, problemas com a internet, energia cai, “Vai ao supermercado?”, “Não” (Droga, preciso de condicionador!), uma decisão rápida! Telefone, telefone...! Banho-mais-que-ligeiro, mentirinha, ônibus.
A pequena grande distância compensada por beijos e fortes abraços. Um pouco de conversa fora do quarto – desabafo. Enquanto tomava seu banho, eu tagarelando até pausar para uma espiadinha no chuveiro. E como era sexy! Tanto achei que era de propósito, fiquei quieta. Até o susto: “Você estava aí?!!”. Risadas.
Mais tarde, dominados pela fome, me perdi em teses de relacionamentos, com direito a meus incríveis exemplos com Lego, bolo, matemática. Um dos meus momentos preferidos. Eu ali, monologando loucamente sentada à mesa e ele me olhando docemente, com seu famigerado sorriso de interesse e encanto pela minha voz ecoando pela cozinha, embebida de constantes auto-risadas, e que não ousava interromper nem para um breve comentário. Ouvia silenciosamente curioso. E tanto me embriaguei em meus delírios que só fui perceber que não queria mais bolo quando ele já estava pronto. Sorrindo o mais doce e sincero dos sorrisos: “Quer macarrão?”, não ousando interromper mais do que isso, apenas, e ainda assim com tanta delicadeza, para sondar minhas preferências, “Bem cozido ou mais durinho?”... O estranhamento causado pela silenciosa ausência de minha voz. “Fala alguma coisa você agora!” (não é de se permanecer calado após ouvir sua namorada falar de (in)fidelidade, e assim, com toda essa intrigante abertura e sinceridade que consigo ter com ele), mas foi preciso insistir para ouvir algumas vagas palavras, que concordavam apenas em parte com as minhas, embora também não quisessem disputá-las.
Comemos juntos, nos posicionados à mesa da mesma forma como sempre fizemos desde a primeira vez, desde o primeiro macarrão. Olhares profundos, mãos se acariciando, risadas e mais blablablá. “Tem suco?”. Sempre podendo abusar, abuso. Um pequeno furto na geladeira (“Amanhã vamos ao supermercado!”), diversões à parte, aquelas bobas que fazem os que amam rirem horrores. Suco aguado, ugh!
Depois fomos pra sala, nem um pouco menos interessante, mas meu segundo momento preferido da noite. Lá, à luz apenas da tv e de uma lâmpada no corredor, fomos nos despindo lentamente até nos entregarmos ao mais denso momento de prazer, daqueles de perder o chão, o fôlego. Ali permanecemos semidespidos, curtindo o momento, conversando, as pontas dos dedos relaxados acariciando meu rosto, meus cabelos, meus seios, minha barriga, minhas pernas, “meus pezinhos”...
Então, uma última parada na madrugada para comer o bolo, aquele mesmo, com suco, e irmos pra cama, nos entregar nos braços um do outro.
De lá só saímos muitas horas depois, após um maravilhoso descanso, muitas carícias, conversas, paixão, até sermos vencidos novamente pela fome. Um banho juntos e já era hora de dizer adeus, ou melhor, até amanhã.
O melhor final-de-semana ever antes de eu voltar à triste realidade dos meus conflitos...
A pequena grande distância compensada por beijos e fortes abraços. Um pouco de conversa fora do quarto – desabafo. Enquanto tomava seu banho, eu tagarelando até pausar para uma espiadinha no chuveiro. E como era sexy! Tanto achei que era de propósito, fiquei quieta. Até o susto: “Você estava aí?!!”. Risadas.
Mais tarde, dominados pela fome, me perdi em teses de relacionamentos, com direito a meus incríveis exemplos com Lego, bolo, matemática. Um dos meus momentos preferidos. Eu ali, monologando loucamente sentada à mesa e ele me olhando docemente, com seu famigerado sorriso de interesse e encanto pela minha voz ecoando pela cozinha, embebida de constantes auto-risadas, e que não ousava interromper nem para um breve comentário. Ouvia silenciosamente curioso. E tanto me embriaguei em meus delírios que só fui perceber que não queria mais bolo quando ele já estava pronto. Sorrindo o mais doce e sincero dos sorrisos: “Quer macarrão?”, não ousando interromper mais do que isso, apenas, e ainda assim com tanta delicadeza, para sondar minhas preferências, “Bem cozido ou mais durinho?”... O estranhamento causado pela silenciosa ausência de minha voz. “Fala alguma coisa você agora!” (não é de se permanecer calado após ouvir sua namorada falar de (in)fidelidade, e assim, com toda essa intrigante abertura e sinceridade que consigo ter com ele), mas foi preciso insistir para ouvir algumas vagas palavras, que concordavam apenas em parte com as minhas, embora também não quisessem disputá-las.
Comemos juntos, nos posicionados à mesa da mesma forma como sempre fizemos desde a primeira vez, desde o primeiro macarrão. Olhares profundos, mãos se acariciando, risadas e mais blablablá. “Tem suco?”. Sempre podendo abusar, abuso. Um pequeno furto na geladeira (“Amanhã vamos ao supermercado!”), diversões à parte, aquelas bobas que fazem os que amam rirem horrores. Suco aguado, ugh!
Depois fomos pra sala, nem um pouco menos interessante, mas meu segundo momento preferido da noite. Lá, à luz apenas da tv e de uma lâmpada no corredor, fomos nos despindo lentamente até nos entregarmos ao mais denso momento de prazer, daqueles de perder o chão, o fôlego. Ali permanecemos semidespidos, curtindo o momento, conversando, as pontas dos dedos relaxados acariciando meu rosto, meus cabelos, meus seios, minha barriga, minhas pernas, “meus pezinhos”...
Então, uma última parada na madrugada para comer o bolo, aquele mesmo, com suco, e irmos pra cama, nos entregar nos braços um do outro.
De lá só saímos muitas horas depois, após um maravilhoso descanso, muitas carícias, conversas, paixão, até sermos vencidos novamente pela fome. Um banho juntos e já era hora de dizer adeus, ou melhor, até amanhã.
O melhor final-de-semana ever antes de eu voltar à triste realidade dos meus conflitos...
sábado, 19 de dezembro de 2009
Novamente chuva. Agora torrencial. Já era noite e fomos pra casa dele. Tomamos um banho quente e minutos depois nos jogamos naquele lençol. Da noite, nem tenho o que gostaria de registrar; a relevância está no dia que se seguiu. Acordamos cedo com uma chamada do meu celular, estrondo suficiente para nos despertar e trocar a continuação do sono por intensas conversas. "Quer ouvir um pouco da história da minha vida?", "Quero.", respondeu, com um claro tom de determinação em sua voz. E desse instante até o momento em que me calei, passei da mulher misteriosa e atraente à menina doce e sonhadora.
Falei de meus relacionamentos anteriores, principalmente do último, o mais relevante. Mas, acima de tudo, contei toda a história daquele que me atormenta a vida, embora tendo feito parte diretamente dela por apenas uma noite. E não escondi meu carinho, minha afeição por ele, nem contudo a verdade de ele sempre mexer comigo até o futuro mais distante que sou capaz de enxergar.
Manteve-se calado até o último minuto. Quando terminei, voltei a olhar em seus olhos. Olhou-me profundamente, ainda refletindo sobre tudo aquilo que havia ouvido. E a primeira palavra que saiu de seus lábios: "Obrigado." Mais um pouco de silêncio. "Agora você faz um pouco mais de sentido." Continuou a me observar, ali sentada sobre seu corpo levemente deitado, vestida em sua camiseta, e de um impulso se ergueu até recostar a testa no espaço entre meu ombro e meu seio. Fechou os olhos e pediu: "Estou com muita vontade de chorar... Posso chorar?". E a cada gota quente que pingava em minha perna, uma camada da espessa casca que se formara em minha alma caía. E junto dela, também lágrimas.
"A gente só conhece o doce quando conhece o salgado", disse ao beijar minha boca com gosto de mar. "É maravilhoso ouvir você contando sua vida, mostrando o caminho que levou você a ser o que é. Acho incrível a sua determinação de jogar tudo pro alto, de arriscar uma nova vida, de se libertar. A intensidade apaixonante com a qual você vive... Você é incrível, menina...". Depois, olhando no fundo dos meus olhos, falou-me tanta coisa, abriu seu coração de uma maneira que a minha emoção não permitiu gravar. Apenas quando terminou, dizendo: "E eu amo a pessoa que você é, eu amo". A frase que me derrubou, que me fez acreditar naquilo que eu também sentia, que me fez respirar fundo, ensaiar os lábios medrosos e, com o rosto dele entre as minhas mãos, tomar fôlego e dizer:
"Eu te amo"...
"Não, não ama", mas foi calado por meus beijos, que se tornaram ao longo violentos, um misto de lágrimas, suor, saliva, minha perna prendendo seu corpo ao meu, junto com meus braços, que eram poucos para tanto abraço, ele apertando o rosto em meu peito, a camiseta molhada de suas lágrimas, seus fortes suspiros concorrendo com as batidas do meu coração e eu, que já não estava mais armada, derrubara todo o meu escudo e era apenas eu, despida de rancor, aberta de sentimentos profundos.
"Se eu não amo, por que nunca consigo me despedir de você? Por que você mexe tanto comigo? Por que você faz eu querer me apegar a você?"... E permitimos a gravidade derrubar nossos corpos, que se despiam ao longo de beijos enlouquecidos de paixão. Nossos lábios tremendo, as sobrancelhas tensas, as palmas das mãos unidas e os dedos presos entrelaçados, e olhares que somente nossos corações seriam capazes de traduzir.
Mais tarde, deitado sobre mim, revelou a minha mais profunda certeza de que pra ele quero abrir as portas da minha vida: "Ainda que esse nosso relacionamento não tenha se declarado um namoro, há poucas coisas que realmente me deixariam chateado: primeiro, se você ficasse com um amigo meu; segundo, se você ficasse com um cara que definitivamente não presta. Porque existem caras que não prestam e caras que definitivamente não prestam. Mas é claro que isso não me impede de sentir ciúmes. Só que eu nunca vou falar que estou com ciúmes. Também preciso te falar que, falando a respeito desse cara que mexe tanto com você, principalmente sobre a dor dele ao perder um filho, mostra que ele é um cara que realmente merece seu carinho...". Os olhos molhados.
Passamos de estranhos corpos se tocando a um homem e uma mulher com seus passados doloridos, dispostos a unir as batidas de seus corações. Ademais, pães de queijo, muitos sorrisos, sabão, carona de bicicleta e a vontade de acabar o mundo.
Onde foi parar o veneno deste blog? Quem se importa...
Falei de meus relacionamentos anteriores, principalmente do último, o mais relevante. Mas, acima de tudo, contei toda a história daquele que me atormenta a vida, embora tendo feito parte diretamente dela por apenas uma noite. E não escondi meu carinho, minha afeição por ele, nem contudo a verdade de ele sempre mexer comigo até o futuro mais distante que sou capaz de enxergar.
Manteve-se calado até o último minuto. Quando terminei, voltei a olhar em seus olhos. Olhou-me profundamente, ainda refletindo sobre tudo aquilo que havia ouvido. E a primeira palavra que saiu de seus lábios: "Obrigado." Mais um pouco de silêncio. "Agora você faz um pouco mais de sentido." Continuou a me observar, ali sentada sobre seu corpo levemente deitado, vestida em sua camiseta, e de um impulso se ergueu até recostar a testa no espaço entre meu ombro e meu seio. Fechou os olhos e pediu: "Estou com muita vontade de chorar... Posso chorar?". E a cada gota quente que pingava em minha perna, uma camada da espessa casca que se formara em minha alma caía. E junto dela, também lágrimas.
"A gente só conhece o doce quando conhece o salgado", disse ao beijar minha boca com gosto de mar. "É maravilhoso ouvir você contando sua vida, mostrando o caminho que levou você a ser o que é. Acho incrível a sua determinação de jogar tudo pro alto, de arriscar uma nova vida, de se libertar. A intensidade apaixonante com a qual você vive... Você é incrível, menina...". Depois, olhando no fundo dos meus olhos, falou-me tanta coisa, abriu seu coração de uma maneira que a minha emoção não permitiu gravar. Apenas quando terminou, dizendo: "E eu amo a pessoa que você é, eu amo". A frase que me derrubou, que me fez acreditar naquilo que eu também sentia, que me fez respirar fundo, ensaiar os lábios medrosos e, com o rosto dele entre as minhas mãos, tomar fôlego e dizer:
"Eu te amo"...
"Não, não ama", mas foi calado por meus beijos, que se tornaram ao longo violentos, um misto de lágrimas, suor, saliva, minha perna prendendo seu corpo ao meu, junto com meus braços, que eram poucos para tanto abraço, ele apertando o rosto em meu peito, a camiseta molhada de suas lágrimas, seus fortes suspiros concorrendo com as batidas do meu coração e eu, que já não estava mais armada, derrubara todo o meu escudo e era apenas eu, despida de rancor, aberta de sentimentos profundos.
"Se eu não amo, por que nunca consigo me despedir de você? Por que você mexe tanto comigo? Por que você faz eu querer me apegar a você?"... E permitimos a gravidade derrubar nossos corpos, que se despiam ao longo de beijos enlouquecidos de paixão. Nossos lábios tremendo, as sobrancelhas tensas, as palmas das mãos unidas e os dedos presos entrelaçados, e olhares que somente nossos corações seriam capazes de traduzir.
Mais tarde, deitado sobre mim, revelou a minha mais profunda certeza de que pra ele quero abrir as portas da minha vida: "Ainda que esse nosso relacionamento não tenha se declarado um namoro, há poucas coisas que realmente me deixariam chateado: primeiro, se você ficasse com um amigo meu; segundo, se você ficasse com um cara que definitivamente não presta. Porque existem caras que não prestam e caras que definitivamente não prestam. Mas é claro que isso não me impede de sentir ciúmes. Só que eu nunca vou falar que estou com ciúmes. Também preciso te falar que, falando a respeito desse cara que mexe tanto com você, principalmente sobre a dor dele ao perder um filho, mostra que ele é um cara que realmente merece seu carinho...". Os olhos molhados.
Passamos de estranhos corpos se tocando a um homem e uma mulher com seus passados doloridos, dispostos a unir as batidas de seus corações. Ademais, pães de queijo, muitos sorrisos, sabão, carona de bicicleta e a vontade de acabar o mundo.
Onde foi parar o veneno deste blog? Quem se importa...
sábado, 12 de dezembro de 2009
Começou com uma tarde chuvosa. Deixamos toda a nossa vida para fora daquele quarto onde nos despimos um pro outro pela primeira vez. Compromissos esquecidos, horários, tudo. Ali só eu e ele. Um elefante. Nunca, nunca fui olhada daquele jeito. Não era só mais um simples olhar de paixão. É escritor, e me olha imaginado poesia, contos... Olha pra mim me imaginando passar creme hidratante nas pernas... Tem até barba de escritor. Aquela barba em que eu enrosquei os dedos e depois deslizei minha mão até aquele peito, puxando os pêlos com um amor violento...
Uma noite com direito a estados alterados de conciência, lágrimas, fotografias, poema... Olhares intermináveis. E até macarrão. Fala fazendo uso de ênclises e só ele faz de um jeito a não parecer irritante.
E aí os astros me dizem no dia seguinte que talvez eu esteja disposta a dar uma nova chance ao amor. E choro enquanto falo com ele no MSN. Estou com medo.
Uma noite com direito a estados alterados de conciência, lágrimas, fotografias, poema... Olhares intermináveis. E até macarrão. Fala fazendo uso de ênclises e só ele faz de um jeito a não parecer irritante.
E aí os astros me dizem no dia seguinte que talvez eu esteja disposta a dar uma nova chance ao amor. E choro enquanto falo com ele no MSN. Estou com medo.
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