sábado, 29 de maio de 2010

Uma festa ordinária. Uma festa banhada de veneno. Música chata, gente comum, bebida paga --além da entrada -- e eu sem dinheiro. Nada me restou a não ser fumar a noite inteira lucidamente. Apenas a minha maldade intrínseca e arrogância plena me satisfizeram ao dar grandes foras em dois sacripantas. Voltei pra casa com aquela insatisfação de quem vai ao cinema curtir um bom filme e volta apenas com a barriga cheia de pipoca.

Todavia, na noite seguinte, havia a possibilidade de redimir meu Vênus. E aquela foi a festa perfeita do ano.

Uma banda supostamente famosa, e muito boa, por sinal. A não necessidade de pagar a entrada, já que a festa acontecia no próprio campus da universidade -- e onde, geralmente, acontecem as melhores festas. A discotecagem anterior e posterior à banda, eu simplesmente nunca havia ouvido em festa alguma, era estupenda. As luzes! Uma psicodelia transcendental. A maravilhosa pinguinha em diversos sabores de um conhecido roots que já tem feito a minha alegria alcoólica há algum tempo. E para completar, um delicioso choconhaque.

Faltava apenas um elemento para a noite tornar-se verdadeiramente perfeita. E esse elemento surgiu, ao primeiro olhar, numa daquelas ocasiões em que suas colegas querem mudar de lugar para ver melhor a banda. Eu, particularmente, sempre prefiro a pista. Porque é lá que as coisas acontecem. Porém, não podia ficar avulsa às colegas.

E nesse entremeio de procurar o local mais adequado a montar acampamento foi que lhe cruzei o olhar. O empurra-empurra e apenas um rápido olhar descompromissado e despropositado. Não me era estranho. Apenas inexplicavelmente notável.

Ao primeiro momento, não lhe dei atenção. Guardei a sensação no inconsciente. Porém, ave de rapina e venusiana que sou, dei início à caça. Aquela, mais do que qualquer noite, merecia uma belíssima conjunção Marte-Vênus em sua plenitude astral.

Fui levada a um posto mais alto da festa, de onde podia ver tudo e todos, entretanto apenas isso podia fazer: ver. Não se podia dançar ao pé daquela árvore, que, aliás, abrigava um abarrotado de gente, entre mim, minhas colegas e até um casal muito apaixonado que insistia em puxar meu cabelo quando se beijavam freteticamente.

Mas foi dali, do pé daquela árvore, que eu pude ver novamente e dessa vez reparar com calma naquela figura tão notável. Exatamente atrás da banda, uma barba vistosa, cabelos buclés, com o cumprimento de quem esperava minhas mãos os entrelaçarem vigorosamente com carinho, grandes argolas nas duas orelhas e um pequeno sonho contido meu estampado em seu rosto.

E de repente percebi que já não mais conseguia lhe desviar o olhar já correspondido. Cada qual com sua idiossincrasia. Eu, um bicho selvagem, medindo a caça e planejando meu ataque. Ele, timidamente curioso, tendia a se esconder atrás de uma faixa que descia do teto, mas que não ocultava seu olhar de desejo.

Precisava apenas de um pretexto. No bolso apenas dois cigarros. Acendi o penúltimo. Exalava aquela fumaça lentamente, encobrindo e revelando quase instantaneamente meus olhos desejosos. Até que subitamente minha caça escapa aos poucos do meu olhar. E foi a hora que achei propícia para esticar minhas asas e alçar vôo. Intencionando encontrá-lo no meio da pequena grande distância que nos separava, saí à procura. Mas, ao contrário do que cheguei a pensar num primeiro momento, não foi ao meu encontro que ele foi. Mas ao banheiro. Menos mal. Ainda não me impedia de fazer minha investida. Porém, como já voltava e também não me vira, aproveitei para fazer a mesma visita. O antro em que muitos tomam aquele enorme suspiro de coragem. Eu, por minha vez, apenas tomei o cuidado de apagar o cigarro, a fim de utilizá-lo ainda para o meu destinado propósito. Conhecidas vizinhas na fila. Olhares que no momento não me quiseram interessar. E, na volta, a parada foi ali mais próximo, atrás da banda.

O susto ao notar a minha proximidade. E as confissões risonhas com uma amiga. Eu, ainda na ponta dos pés, podia ver seu olhar desejoso ainda mais forte por mim acima das cabeças das pessoas. E a cada distraída dele, um passo a mais. Até que... correu. Mas que diabos? Estou atrás de um homem ou de uma bichinha virgem? E nesse intervalo foi que sua amiga veio ao meu encontro.

-- Qual é a do seu amigo?

-- Ele é tímido!

E assim descobri que a timidez pode chegar ao extremo e ultrapassar a quinta série.

Aguardei ansiosamente a sua volta. E eis que, a duas pessoas de distância, lá estava ele de novo, agora com uma latinha de cerveja na mão. Um passo a mais. Mais um passo. E lá estava eu ao seu lado. Um risinho para a amiga que já se preparava pra se mandar e a intimidação.

-- É impressão minha ou você tá fugindo de mim?

-- Não... (senti que se houvesse um buraco no chão, seria lá que estaria com a cabeça a partir daquele momento.)

-- Você fuma?

-- Não. Quer? -- e me ofereceu a cerveja.

Enfim, todo o meu plano estratégico era apenas isso, oferecer-lhe um trago de cigarro. Oras, melhor do que frases prontas! É a minha estratégia para o caso de dar tudo errado, eu apenas "estou fumando aqui, não estou fazendo nada". E claro, ter onde pôr as mãos, que torna-se uma difícil tarefa nessas situações.

E a timidez que tanto lhe impediu de me procurar durante a festa foi se desfazendo ao procurar com suas mãos os meus cabelos, que eram apertados com uma força quase dolorosa:

-- Posso?

-- Pode... (Não só pode como deve... Eu a essa altura já com a mão em torno de sua cintura.)

Combinamos telepaticamente de aguardar o final daquela música. Os últimos acordes. Um degrau abaixo e nos encaramos pela primeira vez. Alguns segundos um admirando o olhar estranho do outro, agora mais próximo que nunca. E seus lábios aqueciam os meus.





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