sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Plutão na Casa Oito e a última prestação do colchão.

É possível se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa? E pelo ex-namorado? Eu, pelo menos, não imaginava que seria.

Acordei radiante, pois não apenas dançaria tango ao final do dia, mas dançaria com ele. E tango. Tapeei Chronos, tomei aquele banho e escolhi a melhor lingerie.

A aula foi perfeita, a melhor até então. Conseguimos ensaiar os passos como que ensaiássemos uma noite de amor. E ensaiávamos mesmo. A apresentação veio depois, quando éramos artistas e platéia de um mesmo espetáculo.

Certo ou errado, nossos corpos foram movidos pela paixão que reacendia de uma brasa nunca verdadeiramente apagada. Eram dois bichos. Rosnando, se cheirando, medindo forças. Amando-se inocentemente.

De todos os tangos, infinitamente o melhor.

Eu o quero de volta, estou decidida. Não seria possível haver no mundo alguém com quem eu mais queira uma casinha colorida com cerquinha branca e jardim, um cachorro saltitante, criançada descalça pelos corredores e café com livro numa manhã chuvosa. Sim, eu o deixei, talvez um dos maiores erros que já cometi, mas dei minha cara a tapa por um futuro de conto de fadas.

Plutão. A morte lhe reina o estado de espírito até os capilares mais finos dos dedos dos pés. E não há vida pós Reino dos Mortos.

Abraçou-me em profundo desespero de não saber conter o pranto doído que me matava por dentro.

Nada mais poderia ser feito. Somente abrir o portão e dizer adeus.

Aos soluços ecoantes, apenas uma confirmação antes das minhas últimas forças desse dia. O mesmo Plutão vinte e três anos antes imperando naquela manhã, transitava nessa noite pelos domínios da Casa Oito.

O último átimo de lucidez antes de me entregar à completa exaustão, à já completa impossibilidade de abrir os olhos inchados: pagaria neste exato mês a última prestação do colchão.

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