Está tudo dando tão certo na minha vida que chega a dar medo. Recebi uma bolsa da universidade, a mesma que não tinha sido aprovada pra mim mês passado, mas que, por insistência da minha orientadora, fui aprovada no processo de seleção. Era necessário mais bolsistas para a área em que vou atuar. O recebimento desta bolsa faz com que tudo tenha dado ainda mais certo com relação à minha retirada do ninho. Embora o valor do aluguel previamente proposto tenha subido em decorrência de reajustes de início de ano, ainda está dentro do que acredito poder arcar. E já tinha dito antes: o lugar é ótimo, as pessoas são maravilhosas e consegui uma ótima companheira de quarto. Mesmo assim, essa bolsa que eu recebi é apenas uma garantia, porque na verdade vou tentar uma Iniciação Científica que, segundo o meu orientador, tem tudo para dar certo.
Além disso, aquilo que eu mais temia, um novo relacionamento, aconteceu. Mas desta vez não estou com medo, talvez até porque esteja loucamente apaixonada, mas se o estou, é porque ele atende a tudo aquilo que eu sempre esperei de um homem. Finalmente alguém que confia em mim verdadeiramente. O que me acontecia antes era que tudo de estranho que eu falava, se eu não apresentasse as fontes, e confiáveis, virava motivo de chacota ou no mínimo recebia um olhar torto. Mas desta vez não. Mais ainda do que obter confiança, eu também sou aceita como sou. Aliás, melhor do que isso, sou tão amada do jeito que sou, que ele morre de medo que eu mude alguma coisa em favor dele, ou seja, mesmo que eu queira mudar, tenho total liberdade pra isso, e ainda serei aplaudida por ter a coragem de querer experimentar um novo eu e também surpreendê-lo mais a cada dia. E claro que não poderia deixar de mencionar o quanto eu sou verdadeiramente desejada como mulher. Agora sim estou realizando a, tão almejada pra mim, canção “O meu amor”, do encantador Chico Buarque.
Até meu celular, esse artefato milenar que eu carrego, voltou de mais uma crise! Viva!
Contudo... existe somente uma angústia em minha vida. Minha mãe não está nada satisfeita com a minha saída de casa. Não somente pelo fato de sair, mas por não ter participado dos planos para que isso ocorresse, o que obviamente nunca poderia acontecer em virtude do próprio fato de ela nunca querer que eu saísse de casa, que não fosse vestida de branco e com um anel dourado no dedo. Simplesmente impossível. E mais impossível ainda é conversar com ela, que não me aceita nem na unha do dedinho do pé. Porque eu nasci sob uma resposabilidade muito grande, a de salvar a vida dela, que tendia ao barranco. Só que eu nunca soube assumir esse posto, sempre fui distante e calada, e um tanto quanto egoísta. Mas ela acredita que isso seja uma postura com relação a ela, e não fruto da minha personalidade. Pensa que eu não a amo e não confio nela. E é aí que as coisas se enroscam. Primeiro porque eu não amo ninguém pelo simples posto que ele ocupa na minha vida. Eu procuro sim amar as pessoas – porque ainda não alcancei como mestre esse título xamânico --, mas não o faço gratuitamente só por carregarem a mesma carga genética que eu. A vida, pra mim, é um composto de peças teatrais, em cada encarnação você assume um papel, e nesta peça ela é minha mãe. Em outra peça podemos até mesmo inverter os papéis. E aí dói nela saber que a amo tanto quanto amo qualquer outro ser que amo no Universo, seja ele um amigo da faculdade ou um cachorro. E quanto à confiança, bem, para alguém com mania de perseguição e que já teve seus segredos revelados aos ventos e até mesmo usados contra si mesmo, é realmente difícil se abrir com tanta disposição. Sem contar a enorme divergência de personalidades e pontos de vista, que impossibilitam de vez o bom caminhar de um diálogo saudável.
Então o negócio é se apegar aos orixás e torcer para que em breve ela perceba o quanto essa mudança vai nos fazer bem, e que, longe ou perto dela, não vou deixar de amá-la. Mesmo que eu seja capaz de me esquecer de lhe telefonar de vez em quando.
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