Novamente chuva. Agora torrencial. Já era noite e fomos pra casa dele. Tomamos um banho quente e minutos depois nos jogamos naquele lençol. Da noite, nem tenho o que gostaria de registrar; a relevância está no dia que se seguiu. Acordamos cedo com uma chamada do meu celular, estrondo suficiente para nos despertar e trocar a continuação do sono por intensas conversas. "Quer ouvir um pouco da história da minha vida?", "Quero.", respondeu, com um claro tom de determinação em sua voz. E desse instante até o momento em que me calei, passei da mulher misteriosa e atraente à menina doce e sonhadora.
Falei de meus relacionamentos anteriores, principalmente do último, o mais relevante. Mas, acima de tudo, contei toda a história daquele que me atormenta a vida, embora tendo feito parte diretamente dela por apenas uma noite. E não escondi meu carinho, minha afeição por ele, nem contudo a verdade de ele sempre mexer comigo até o futuro mais distante que sou capaz de enxergar.
Manteve-se calado até o último minuto. Quando terminei, voltei a olhar em seus olhos. Olhou-me profundamente, ainda refletindo sobre tudo aquilo que havia ouvido. E a primeira palavra que saiu de seus lábios: "Obrigado." Mais um pouco de silêncio. "Agora você faz um pouco mais de sentido." Continuou a me observar, ali sentada sobre seu corpo levemente deitado, vestida em sua camiseta, e de um impulso se ergueu até recostar a testa no espaço entre meu ombro e meu seio. Fechou os olhos e pediu: "Estou com muita vontade de chorar... Posso chorar?". E a cada gota quente que pingava em minha perna, uma camada da espessa casca que se formara em minha alma caía. E junto dela, também lágrimas.
"A gente só conhece o doce quando conhece o salgado", disse ao beijar minha boca com gosto de mar. "É maravilhoso ouvir você contando sua vida, mostrando o caminho que levou você a ser o que é. Acho incrível a sua determinação de jogar tudo pro alto, de arriscar uma nova vida, de se libertar. A intensidade apaixonante com a qual você vive... Você é incrível, menina...". Depois, olhando no fundo dos meus olhos, falou-me tanta coisa, abriu seu coração de uma maneira que a minha emoção não permitiu gravar. Apenas quando terminou, dizendo: "E eu amo a pessoa que você é, eu amo". A frase que me derrubou, que me fez acreditar naquilo que eu também sentia, que me fez respirar fundo, ensaiar os lábios medrosos e, com o rosto dele entre as minhas mãos, tomar fôlego e dizer:
"Eu te amo"...
"Não, não ama", mas foi calado por meus beijos, que se tornaram ao longo violentos, um misto de lágrimas, suor, saliva, minha perna prendendo seu corpo ao meu, junto com meus braços, que eram poucos para tanto abraço, ele apertando o rosto em meu peito, a camiseta molhada de suas lágrimas, seus fortes suspiros concorrendo com as batidas do meu coração e eu, que já não estava mais armada, derrubara todo o meu escudo e era apenas eu, despida de rancor, aberta de sentimentos profundos.
"Se eu não amo, por que nunca consigo me despedir de você? Por que você mexe tanto comigo? Por que você faz eu querer me apegar a você?"... E permitimos a gravidade derrubar nossos corpos, que se despiam ao longo de beijos enlouquecidos de paixão. Nossos lábios tremendo, as sobrancelhas tensas, as palmas das mãos unidas e os dedos presos entrelaçados, e olhares que somente nossos corações seriam capazes de traduzir.
Mais tarde, deitado sobre mim, revelou a minha mais profunda certeza de que pra ele quero abrir as portas da minha vida: "Ainda que esse nosso relacionamento não tenha se declarado um namoro, há poucas coisas que realmente me deixariam chateado: primeiro, se você ficasse com um amigo meu; segundo, se você ficasse com um cara que definitivamente não presta. Porque existem caras que não prestam e caras que definitivamente não prestam. Mas é claro que isso não me impede de sentir ciúmes. Só que eu nunca vou falar que estou com ciúmes. Também preciso te falar que, falando a respeito desse cara que mexe tanto com você, principalmente sobre a dor dele ao perder um filho, mostra que ele é um cara que realmente merece seu carinho...". Os olhos molhados.
Passamos de estranhos corpos se tocando a um homem e uma mulher com seus passados doloridos, dispostos a unir as batidas de seus corações. Ademais, pães de queijo, muitos sorrisos, sabão, carona de bicicleta e a vontade de acabar o mundo.
Onde foi parar o veneno deste blog? Quem se importa...
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