quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Chegou feito um bicho. Do jeito que eu gosto. Me beijou, me mordeu, me agarrou, me apertou, me arrancou a roupa, me jogou na parede, me derrubou, me lambeu, me cheirou, me puxou, me xingou, me molhou, me gozou. Como quis. Violento. Como gosto.

Fez-se Plutão. Suicidou-se. Não, ainda estava lá. Decepção. Alívio.

Não quis meus carinhos, não quis meu afeto. Foi-se. Assim como veio.

O amanhecer só. Comida, dilacerada, suada. Lá fora chove. Aqui dentro também. O ímpeto de me jogar na chuva. Não deu tempo. Estiou.

Solidão, pecados, doçura e desprazer. Comida, dilacerada, rasgada. Seca.

Era só um carinho, só um carinho. Um beijo, um afeto. Amor. Amor? Não, amor não...

E a vontade. A vontade...

Será que gosto?

domingo, 26 de setembro de 2010

E conseguiu.

Um lugar simples, uma cantina da própria faculdade, mas que eu não conhecia. Comida vegetariana -- não come carne há sete anos --, conversa agradável. Já tinha nele confiança o bastante para conhecer seu escritório. Um lugar incrível, maravilhosamente arquitetado, piso de aquário, teto de vidro, bambus. E lá mesmo ficava seu aconchego pessoal, ainda que improvisado.

Depois de me passar algumas músicas xamânicas, ele se deitou no enorme colchão que ficava no chão mesmo e relatou várias de suas viagens espirituais. Contava de uma forma tão empolgante que até se o assunto não me interessasse passaria a me interessar. Ao fundo tambores e animais.

Alugamos um filme que de tanto me falar, tivemos que assistir naquele dia. Os músculos das minhas costas doíam imensamente, resultado das tantas atividades físicas que realizo durante a semana. Ele se ofereceu para uma massagem e eu permiti, realmente doía muito. Difícil não imaginar que dali não surgiriam carinhos que aos poucos seriam correspondidos. Ao terminar o filme, carinhos mais íntimos.

Não fomos até o fim porque não estava me sentindo fisicamente preparada para aquilo, não ficaria totalmente à vontade.

De qualquer forma, posso dizer que conseguiu o que nenhum estranho jamais conseguira: a chance de tentar.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Um maluco. Era sutilmente cortejada pela menina com quem outrora havia ficado, a mesma daquela festa anterior. Eis que me surge, já com ar de conhecido, dizendo-me que me via por um famigerado bar, o mesmo que outrora freqüentava para ir de encontro àquele que já passou. Porém não trouxe perguntas prontas, não me fez entrevistada. E assim, prendeu-me a atenção.

"Eu adoro você". No presente do indicativo, embora fosse a primeira vez que me falasse. Caralho, mas tinha um sorriso! E não fingia modéstia, assim como sabia que no fundo eu também sei o cabelo deslumbrante que possuo. Uma franqueza e percepção tamanhas que não me atrevia a dar-lhe sua sentença final de morte antes de mais uma pequena mostra de que poderia ser mesmo intrigantemente interessante, não antes que se completassem mil e uma noites.

A menina? Que menina? Já beijava outra. Ele, por sua vez, afirmou que não me tentaria beijar. Faria-me confiar nele, pois o que queria era me conhecer. E me adorava. Temas realmente interessantes a mim e, acima de tudo, abria sua vida de forma bem natural, dando-me confiança a ponto de eu mesma passar a lhe contar fatos próprios.

Do primeiro minuto ao último, repetiu algo como uma dezena de vezes seu e-mail, o qual manteria arquivado numa gavetinha mental que abriria eu de vez em quando apenas para cogitar a contrariedade de uma decisão já por mim estabelecida naquele adeus seguido de "a gente se encontra por aí". Nada apreciado por quem ouviu.

Dados em mente, mapa astral. Ascendente, quadratura. Não. Meu carimbo e assinatura abaixo.

Pouco mais de dois meses. Uma das mais agradáveis festas até o presente. Em meio à multidão, ele. Perdi. Dancei, bebi, fumei, ri. Viro-me, sorrio. "Eu falei que nos veríamos por aí.", "Hoje você me dará seu contato!", "Eu ainda sei seu e-mail.", "E por que não me escreveu?", "Rsrs..." Da noite, bastou.

Orkut. Passou-me mais informações pessoais. Insistência, e-mail. Convite para jantar. Jantar, o quê?? Quem, aqui em meu mundinho, já me chamou pra jantar?? Dias desesperada entre "que roupa?", "salto?", "mostrarei minha lingerie?", "divide-se a conta?", "vergonha", "afinal, aceito ou não?". Paranóias levadas pelo já telefonema a combinar já não mais um jantar, almoço.

Amanhã. Um desconhecido que foi capaz de me dobrar. Ganhou minha atenção, minha verdade, meu Orkut, meu e-mail, meu telefone, minha companhia para almoçar. Seis de Copas. E amanhã veremos o que mais será capaz de ganhar de mim.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Plutão na Casa Oito e a última prestação do colchão.

É possível se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa? E pelo ex-namorado? Eu, pelo menos, não imaginava que seria.

Acordei radiante, pois não apenas dançaria tango ao final do dia, mas dançaria com ele. E tango. Tapeei Chronos, tomei aquele banho e escolhi a melhor lingerie.

A aula foi perfeita, a melhor até então. Conseguimos ensaiar os passos como que ensaiássemos uma noite de amor. E ensaiávamos mesmo. A apresentação veio depois, quando éramos artistas e platéia de um mesmo espetáculo.

Certo ou errado, nossos corpos foram movidos pela paixão que reacendia de uma brasa nunca verdadeiramente apagada. Eram dois bichos. Rosnando, se cheirando, medindo forças. Amando-se inocentemente.

De todos os tangos, infinitamente o melhor.

Eu o quero de volta, estou decidida. Não seria possível haver no mundo alguém com quem eu mais queira uma casinha colorida com cerquinha branca e jardim, um cachorro saltitante, criançada descalça pelos corredores e café com livro numa manhã chuvosa. Sim, eu o deixei, talvez um dos maiores erros que já cometi, mas dei minha cara a tapa por um futuro de conto de fadas.

Plutão. A morte lhe reina o estado de espírito até os capilares mais finos dos dedos dos pés. E não há vida pós Reino dos Mortos.

Abraçou-me em profundo desespero de não saber conter o pranto doído que me matava por dentro.

Nada mais poderia ser feito. Somente abrir o portão e dizer adeus.

Aos soluços ecoantes, apenas uma confirmação antes das minhas últimas forças desse dia. O mesmo Plutão vinte e três anos antes imperando naquela manhã, transitava nessa noite pelos domínios da Casa Oito.

O último átimo de lucidez antes de me entregar à completa exaustão, à já completa impossibilidade de abrir os olhos inchados: pagaria neste exato mês a última prestação do colchão.

sábado, 29 de maio de 2010

Uma festa ordinária. Uma festa banhada de veneno. Música chata, gente comum, bebida paga --além da entrada -- e eu sem dinheiro. Nada me restou a não ser fumar a noite inteira lucidamente. Apenas a minha maldade intrínseca e arrogância plena me satisfizeram ao dar grandes foras em dois sacripantas. Voltei pra casa com aquela insatisfação de quem vai ao cinema curtir um bom filme e volta apenas com a barriga cheia de pipoca.

Todavia, na noite seguinte, havia a possibilidade de redimir meu Vênus. E aquela foi a festa perfeita do ano.

Uma banda supostamente famosa, e muito boa, por sinal. A não necessidade de pagar a entrada, já que a festa acontecia no próprio campus da universidade -- e onde, geralmente, acontecem as melhores festas. A discotecagem anterior e posterior à banda, eu simplesmente nunca havia ouvido em festa alguma, era estupenda. As luzes! Uma psicodelia transcendental. A maravilhosa pinguinha em diversos sabores de um conhecido roots que já tem feito a minha alegria alcoólica há algum tempo. E para completar, um delicioso choconhaque.

Faltava apenas um elemento para a noite tornar-se verdadeiramente perfeita. E esse elemento surgiu, ao primeiro olhar, numa daquelas ocasiões em que suas colegas querem mudar de lugar para ver melhor a banda. Eu, particularmente, sempre prefiro a pista. Porque é lá que as coisas acontecem. Porém, não podia ficar avulsa às colegas.

E nesse entremeio de procurar o local mais adequado a montar acampamento foi que lhe cruzei o olhar. O empurra-empurra e apenas um rápido olhar descompromissado e despropositado. Não me era estranho. Apenas inexplicavelmente notável.

Ao primeiro momento, não lhe dei atenção. Guardei a sensação no inconsciente. Porém, ave de rapina e venusiana que sou, dei início à caça. Aquela, mais do que qualquer noite, merecia uma belíssima conjunção Marte-Vênus em sua plenitude astral.

Fui levada a um posto mais alto da festa, de onde podia ver tudo e todos, entretanto apenas isso podia fazer: ver. Não se podia dançar ao pé daquela árvore, que, aliás, abrigava um abarrotado de gente, entre mim, minhas colegas e até um casal muito apaixonado que insistia em puxar meu cabelo quando se beijavam freteticamente.

Mas foi dali, do pé daquela árvore, que eu pude ver novamente e dessa vez reparar com calma naquela figura tão notável. Exatamente atrás da banda, uma barba vistosa, cabelos buclés, com o cumprimento de quem esperava minhas mãos os entrelaçarem vigorosamente com carinho, grandes argolas nas duas orelhas e um pequeno sonho contido meu estampado em seu rosto.

E de repente percebi que já não mais conseguia lhe desviar o olhar já correspondido. Cada qual com sua idiossincrasia. Eu, um bicho selvagem, medindo a caça e planejando meu ataque. Ele, timidamente curioso, tendia a se esconder atrás de uma faixa que descia do teto, mas que não ocultava seu olhar de desejo.

Precisava apenas de um pretexto. No bolso apenas dois cigarros. Acendi o penúltimo. Exalava aquela fumaça lentamente, encobrindo e revelando quase instantaneamente meus olhos desejosos. Até que subitamente minha caça escapa aos poucos do meu olhar. E foi a hora que achei propícia para esticar minhas asas e alçar vôo. Intencionando encontrá-lo no meio da pequena grande distância que nos separava, saí à procura. Mas, ao contrário do que cheguei a pensar num primeiro momento, não foi ao meu encontro que ele foi. Mas ao banheiro. Menos mal. Ainda não me impedia de fazer minha investida. Porém, como já voltava e também não me vira, aproveitei para fazer a mesma visita. O antro em que muitos tomam aquele enorme suspiro de coragem. Eu, por minha vez, apenas tomei o cuidado de apagar o cigarro, a fim de utilizá-lo ainda para o meu destinado propósito. Conhecidas vizinhas na fila. Olhares que no momento não me quiseram interessar. E, na volta, a parada foi ali mais próximo, atrás da banda.

O susto ao notar a minha proximidade. E as confissões risonhas com uma amiga. Eu, ainda na ponta dos pés, podia ver seu olhar desejoso ainda mais forte por mim acima das cabeças das pessoas. E a cada distraída dele, um passo a mais. Até que... correu. Mas que diabos? Estou atrás de um homem ou de uma bichinha virgem? E nesse intervalo foi que sua amiga veio ao meu encontro.

-- Qual é a do seu amigo?

-- Ele é tímido!

E assim descobri que a timidez pode chegar ao extremo e ultrapassar a quinta série.

Aguardei ansiosamente a sua volta. E eis que, a duas pessoas de distância, lá estava ele de novo, agora com uma latinha de cerveja na mão. Um passo a mais. Mais um passo. E lá estava eu ao seu lado. Um risinho para a amiga que já se preparava pra se mandar e a intimidação.

-- É impressão minha ou você tá fugindo de mim?

-- Não... (senti que se houvesse um buraco no chão, seria lá que estaria com a cabeça a partir daquele momento.)

-- Você fuma?

-- Não. Quer? -- e me ofereceu a cerveja.

Enfim, todo o meu plano estratégico era apenas isso, oferecer-lhe um trago de cigarro. Oras, melhor do que frases prontas! É a minha estratégia para o caso de dar tudo errado, eu apenas "estou fumando aqui, não estou fazendo nada". E claro, ter onde pôr as mãos, que torna-se uma difícil tarefa nessas situações.

E a timidez que tanto lhe impediu de me procurar durante a festa foi se desfazendo ao procurar com suas mãos os meus cabelos, que eram apertados com uma força quase dolorosa:

-- Posso?

-- Pode... (Não só pode como deve... Eu a essa altura já com a mão em torno de sua cintura.)

Combinamos telepaticamente de aguardar o final daquela música. Os últimos acordes. Um degrau abaixo e nos encaramos pela primeira vez. Alguns segundos um admirando o olhar estranho do outro, agora mais próximo que nunca. E seus lábios aqueciam os meus.